Você nasceu para sentir prazer

Se por um lado a sociedade afirma que o prazer não é algo que diga respeito as mulheres, o corpo afirma o contrário e grita que existe uma estrutura para sentir e sustentá-lo.




Estou na dúvida sobre como iniciar esse texto, são tantas coisas que me motivam a escrevê-lo, que acabam me deixando ansiosa e fazem as ideias fluírem com maior dificuldades. Mas gostaria de começar dizendo que dedico esse texto a todas aquelas que se culpam fortemente por não sentirem prazer vaginal, tanto quanto sentem prazer em outros lugares. Dedico esse texto a aquelas que já tiveram seu desejo sexual questionado, posto num lugar de patologia ou animalizado. Dedico esse texto a todas que acreditam que o papel de deus é te punir pelos desejos que você sente. Dedico esse texto ao meu eu de 15 anos.


Para quem não sabe eu sou de família cristã. Sai por não estar alinhada à religião, pois não fazia mais sentido na minha vida, além de ser indignada, principalmente, pela falta de posicionamento cristão em assuntos que envolvem desigualdade de raça e gênero.


Socialmente, percebemos que se coloca a mulher como o ser que não deve sentir nada, a não ser dor. Parece que vai contra a determinação do Deus cristão, quando sentimos dor, mas se temos em nossa pélvis tantos sistemas e órgãos responsáveis e sensíveis ao prazer, não seria nosso próprio corpo signo da falha dos argumentos que dizem não termos sensibilidade sexual e sensorial ?


"As mulheres foram desenhadas para receber prazer e experimentar gatilhos para o orgasmo, que vão das carícias habilidosas à pressão rítmica de todos os tipos em muitas, muitas partes de seu corpo." - Naomi Wolf

Já se fala de uma forma mais aberta sobre o clitóris ser um órgão destinado ao prazer, ao sentir. Mas ainda falamos e sabemos pouco sobre uma outra prova de que nascemos para experimentar diversos estímulos físicos, a rede neural pélvica. Esse texto é para reforçar explicar que no sentido fisiológico você foi desenhada para receber muito prazer, que de acordo com o dicionário Oxford é:


"Sensação ou emoção agradável, ligada às satisfação de uma vontade, uma necessidade, do exercício harmonioso das atividades vitais etc.; alegria, contentamento, júbilo, satisfação."


Nossa conversa se inicia no períneo, que de acordo com o Manual de introdução a ginecologia natural, de Pabla Martín:


"encontra-se entre a entrada da vagina e o ânus. É composto de musculatura e ligamentos encarregados de dar flexibilidade e resistência aos órgãos da pélvis que ele sustenta."¹


Inicio nossa conversa no períneo, por ser o local onde se dá a construção da Rede Neural Pélvica.



Foto: ken hub




Uma rede de nervos que se inicia na pélvis, mas se espalha por todo seu corpo e está conectada com a medula espinhal, "uma estrutura comprida, frágil e fusiforme, que começa no final do tronco cerebral e se estende quase até o fim da espinha. É constituída por feixes de axônios dos nervos formando vias que transportam as mensagens de entrada e de saída entre o resto do organismo. A medula espinhal contém circuitos de células nervosas dentro de si que controlam os movimentos coordenados como caminhar e nadar, bem como a micção. Também é o centro de reflexos, como o reflexo patelar, ao bater no joelho."²


Pense na rede Neural como uma trama de fios espalhado pelo corpo que se ilumina a depender dos estímulos recebidos na vulva, vagina, clitóris e outras partes dos corpo. Apesar da maior parte se localizar na pelve, repito que, ela está distribuída por todo o corpo.



Foto: ken hub



Fatores bem importantes sobre a rede Neural Pélvica. Todos os seres humanos têm. Existe uma variedade de possibilidades na organização dessa trama , o que faz com que de um modo comum, algumas pessoas sintam prazer ao receberem estímulos em regiões como clitóris, colo do útero e vagina, mas ao mesmo tempo a construção dessa trama, por mais semelhante que seja não é igual em nenhum corpo. Ao observar as imagens percebe-se que existem mais redes neurais conectando a pelve com clitóris do que a pelve com pênis.


As informações acima servem como argumento para que você investigue seu próprio corpo, descubra o que lhe é bom ou não. Saia do comum, crie seu próprio repertório, um que consiga acolher e estimular o SEU corpo, pois se basear sempre no repertório externo te impede de se conhecer. E uma provocação é, se nenhuma rede neural é igual a outra, por que sempre usar o corpo do outro como referência? Além do mais, para quem serve essa culpa que alimentamos quando não sentimos prazer do jeito padronizado?


"Quando reivindico o prazer, como nos ensina Audre Lorde ou Adriene Maree Brown, acredito que estou exercendo minha humanidade e confiando no meu corpo." - Maria Chantal

Compreenda, você nasceu para sentir prazer e ainda que me leia e não acredite nisso, pois não são todos os corpos que o prazer é permitido, por exemplo, quando pensamos em corpos negros, gordos... Mas ainda que a sociedade nos grite um grande não, quando o assunto é plenitude de vida, nossa fisiologia apresenta algo bem diferente.


Como diz a escritora Naomi wolf:


"As mulheres foram desenhadas para receber prazer e experimentar gatilhos para o orgasmo, que vão das carícias habilidosas à pressão rítmica de todos os tipos em muitas, muitas partes de seu corpo.


O modelo pornográfico do coito — e mesmo o modelo convencional de coito em nossa cultura, que é rápido, orientado ao objetivo, linear e focado no estímulo de uma ou duas áreas do corpo da mulher —

simplesmente não vai servir para muitas mulheres, ou pelo menos não de forma profunda, pois envolve uma parte muito superficial do potencial dos sistemas de resposta sexual neurológica das mulheres. Para algumas mulheres, muitos dos caminhos neurais se originam no clitóris. A vagina dessas mulheres será menos “enervada” — menos densa em nervos. Uma mulher desse grupo poderá gostar muito de estímulo clitoridiano e não tirar

muito prazer na penetração.


Outras mulheres têm muita enervação na vagina e vão chegar ao clímax facilmente apenas pela penetração. Outras, ainda,

podem ter muitas terminações neurais nas áreas do períneo e do ânus: estas

podem gostar de sexo anal e até mesmo ter um orgasmo dessa forma, coisa

que deixaria outras mulheres completamente frias e até com dor.


A formação da rede neural está mais próxima da superfície em algumas mulheres, tornando mais fácil para elas chegar ao orgasmo. A formação de outras pode estar mais submersa em seu corpo, fazendo que elas próprias e seus parceiros tenham que ser mais inventivos, já que terão que buscar um clímax mais

esquivo."³


Concluindo, você sente mais prazer do que a cultura em que está inserida lhe permite acessar. Contaram por anos uma história de que só servíamos para dar prazer aos outros, como mulher negra, meu corpo é socialmente, entendido como objeto. Então, quando reivindico o prazer, como nos ensina Audre Lorde ou Adriene Maree Brown, acredito que estou exercendo minha humanidade e confiando no meu corpo.


Conselho, vá se autoconhecer.


Finalizo com uma dica central para você conhecer ser próprio corpo:


Crie um diário investigativo, nesse que pode ser um bloquinho ou um caderno, escreva quais são as regiões que te dão prazer, provocam risos ou arrepios. Escreva quais locais são desconfortáveis para você.

Em seu caderno de auto estudo e pesquisa vale escrever também suas posições favoritas.


Aproveito e deixo aqui a dica da matéria sobre Kunyaza, para acrescentar seu repertório sexual.


Me conta nos comentários ou me mande mensagem, e-mail, whatsapp… sobre o quanto esse post foi útil para você.


Se inscreva no curso Descolonize seus quadris, repertório na teoria e na prática para expandir o prazer, autoconhecimento e liberdade através da pélvis.


_


¹Manual de Introdução a Ginecologia Natural


²https://www.msdmanuals.com/pt-br/casa/dist%C3%BArbios-cerebrais,-da-medula-espinal-e-dos-nervos/biologia-do-sistema-nervoso/medula-espinhal


³ Vagina, uma biografia - Naomi wolf


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